Página destinada a publicação de artigos relacionados a Rede PHI e ao comitê de ensino sobre patrimônio do ICOMOS.

ENSINO, PROJETO E PATRIMÔNIO CULTURAL

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Carina Mendes dos Santos Melo 

A proposta deste artigo é trazer reflexões acerca do ensino de projeto em monumentos e sítios de valor histórico cultural. No Brasil, a valorização da ação de proteção e conservação do patrimônio edificado resultou, nos últimos anos, na obrigatoriedade dentro dos currículos dos cursos de arquitetura de uma área temática denominada genericamente de Técnicas Retrospectivas. Esta obrigatoriedade vem sendo traduzida por diferentes disciplinas da grade curricular das escolas de arquitetura e urbanismo brasileiras. No entanto o foco aqui são as disciplinas de projeto, no entendimento do ato projetual como momento síntese, de convergência de aprendizados, sendo fundamental que o conhecimento desse patrimônio cultural tenha presença neste processo. Conhecimento pensado de forma alargada, no sentido de conhecer as características dessa linguagem comum do patrimônio arquitetônico dos países de língua portuguesa.

 

 


Palavras-Chave: Ensino; Projeto; Patrimônio Cultural; Linguagem Arquitetônica; Técnicas Retrospectivas.

 

REFLEXÕES SOBRE AS "TÉCNICAS RETROSPECTIVAS" NOS CURSOS BRASILEIROS DE GRADUAÇÃO EM ARQUITETURA E URBANISMO

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Mônica Cristina Henriques Leite Olender

O presente artigo se dedica a analisar algumas questões relacionadas à disciplina Técnicas Retrospectivas, apontada pelo Ministério da Educação como aquela responsável por abarcar, nos cursos de graduação em Arquitetura e Urbanismo brasileiros, os temas relativos à preservação do patrimônio histórico-cultural. Essa disciplina, como método e matéria, vem sendo alvo de estudos mais sistemáticos no campo acadêmico desde 2012, mas a partir do ponto de vista quase que exclusivo dos resultados projetuais (intervenções propriamente ditas) nas pré-existências. Se os resultados dos projetos arquitetônicos e urbanísticos de nossos profissionais não têm respondido adequadamente às demandas de nossas sociedades, isso sedeve à deficiência pedagógica que envolve a disciplina, mas, principalmente, a uma possível crise no próprio campo da Arquitetura e Urbanismo, a partir do momento em que há um nítido afastamento de alunos e profissionais de experiências com e nas cidades, pautado por uma debilidade no entendimento e estruturação das disciplinas de história e teoria, do qual as Técnicas Retrospectivas fazem parte. A meu ver, várias das respostas que estamos procurando para mudar esse cenário não estão no campo da Arquitetura e Urbanismo, mas no da Educação vista sob a ótica da liberdade e da diferença.

 

 


Palavras-Chave: Educação; Arquitetura e Urbanismo;Técnicas Retrospectiva; Experiência; Diferença.

 

FORMAÇÃO DO ARQUITETO E URBANISTA PARA A PRESERVAÇÃO DE ÁREAS E EDIFÍCIOS DE VALOR PATRIMONIAL: DIÁLOGOS ENTRE A TEORIA E O EXERCÍCIO PROJETUAL

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Monique Lessa Vieira Olimpio

O presente trabalho visa elaborar uma matriz de conhecimentos essenciais, que promova a capacitação do estudante de Arquitetura e Urbanismo no Brasil para a prática projetual em áreas e edifícios de interesse patrimonial. Acredita-se que é necessária uma constante discussão sobre perfis e padrões que assegurem a qualificação do profissional – arquiteto e urbanista – à altura dos desafios sociais, culturais e econômicos vivenciados atualmente. Entres esses desafios, destaca-se, neste trabalho, a questão da conservação de uma preexistência de valor patrimonial. O objeto de estudo desta pesquisa corresponde a uma análise do ensino da preservação patrimonial (no âmbito dos cursos de graduação em Arquitetura e Urbanismo) e à construção de um suporte teórico-metodológico para a formação dos futuros profissionais (no âmbito da graduação) que venham a desenvolver projetos de intervenção arquitetônica em edifícios e áreas de valor patrimonial. Parte-se da premissa que o ensino de Arquitetura e Urbanismo só possibilitará uma formação profissional que revele competências e habilidades para a preservação do patrimônio edificado mediante uma clara relação entre aprofundamento teórico e exercício projetual. Logo, para o alcance do objetivo, foram definidas duas estratégias de pesquisa: 

 

1) pesquisa bibliográfica sobre temas relacionados à preservação e à intervenção arquitetônica em edifícios e áreas de reconhecido valor patrimonial, destacando alguns dos principais modelos teórico-operativos, fruto de anos de reflexão;

 

2) pesquisa empírica (estudos de casos), que propõe investigar e analisar criticamente como se dá o processo de ensino-aprendizagem para preservação patrimonial nos cursos de Arquitetura e Urbanismo na Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) e na Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), no Brasil, e na Università degli Studi “Gabriele d’Annunzio” di Chieti-Pescara (Ud’A), na Itália. A matriz proposta parte da reflexão teórica, das análises dos estudos de caso e da sua validação por meio de professores especialistas na temática e foi definida com base em cinco perguntas fundamentais: “Por que preservar?”, “Para quem preservar”, “O que preservar?”, “Como preservar?” e “Estou preservando?”, todas relacionadas a princípios teórico-operativos que influenciam diretamente a fase propositiva do projeto.

 

 

 

Palavras-chave: Projeto de intervenção arquitetônica; Formação profissional; Matriz de conhecimentos; Experiências no Brasil e Itália.

 

A FORMAÇÃO CRÍTICA NO ENSINO DE PROJETO NO CAMPO DO PATRIMÔNIO CULTURAL

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Prof. Dr. Flávio de Lemos Carsalade

O campo do Patrimônio Cultural tem se apresentado cada vez mais interessante ao estudante de arquitetura, que nele vê possibilidades de atuação muito instigantes, quer pelas possibilidades de mercado de trabalho, quer pelo apelo cultural ou pelos desafios que ele apresenta. Da mesma forma que o projeto de intervenção em contextos notáveis ou protegidos é um caso especial do projeto arquitetônico, com abordagens específicas e um rol de habilidades e competências também especial, o seu ensino enseja certas especialidades que não se restringem apenas a um leque de informações a mais ou às informações dadas isoladamente nas disciplinas de "técnicas retrospectivas" conforme exigência das diretrizes curriculares.

Em um primeiro exame, entretanto, a questão básica quanto ao projeto arquitetônico no campo patrimonial parece ser a mesma dos demais projetos arquitetônicos. Inicialmente, se trata sempre de intervenções em realidades pré-existentes, e o respeito ao contexto onde o problema arquitetural se insere e as considerações quanto a modos de intervir nessa realidade são fundamentais em um caso ou outro. A ideia de tabula rasa, desconhecimento, proposital ou não dos fatores não só territoriais e locacionais, mas também socioeconômicos e culturais que condicionam ou determinam o projeto não é mais aceitável. O projeto arquitetônico, como o compreendemos hoje, é, na realidade, uma resposta do profissional a um problema físico-espacial que a sociedade lhe apresenta e que espera ser respondido em sua totalidade sob pena de uma parcialidade ineficaz ou, na pior das hipóteses, de sua inviabilidade. A expressão projetual é a síntese, no espaço, das soluções aos problemas trazidos pelas necessidades das instituições dentro da vida, isto é, profundamente ligadas aos limites da realidade às oportunidades, ameaças, potencialidades e outros fatores que são ao mesmo tempo, estimuladores da criatividade e coercitivos de soluções. Ademais, habilidade comum tanto ao projeto convencional quanto ao projeto no campo patrimonial, são a capacidade crítica e a cultura arquitetônica, duas vertentes do saber que sempre devem andar juntas para que a cultura não seja apenas informação, mas se transforme em efetiva competência. Da mesma forma que a cultura arquitetônica cria um repertório de possibilidades, a crítica lhes indica a pertinência e ambas são necessárias para o fazer profissional. Falamos aqui de uma cultura e uma crítica que sejam não apenas de um acervo de conhecimento de obras e soluções, mas na capacidade de compreensão dos fundamentos arquiteturais[1] e do entendimento de como se processam as articulações dos elementos projetados. No caso dos projetos em conjuntos notáveis protegidos, sejam eles espaços urbanos ou edifícios, um entendimento da ordem e linguagem arquitetônicas pré-existentes torna-se fundamental. Convém notar que nos casos de lotes vagos ou de novos espaços urbanos, as articulações pré-existentes se referem ao contexto onde se insere a nova obra, mas no caso patrimonial, elas se encontram estabelecidas no próprio interior da intervenção e não apenas envoltória a ela, a influenciar as soluções desde fora.

Essas duas considerações sobre a natureza da tarefa arquitetônica em um e outro caso apontam as semelhanças, mas também já indicam caminhos sutis que as diferenciam. Essa sutileza talvez seja também o que parece distinguir outros fatores que são comuns aos projetos nos dois campos, mas que aparecem com força mais incisiva nas intervenções no patrimônio. A questão do tempo, é uma delas. Se não convém desconsideramos o tempo em projetos convencionais, naqueles que atinem ao patrimônio as considerações temporais são de outra ordem, afinal, um dos temas de maior dificuldade operacional no campo do patrimônio histórico-cultural diz respeito às intervenções que hoje fazemos no objeto de preservação. A princípio, pode-se questionar que se, afinal de contas, o bem histórico é um objeto que nos chega do passado, por que nele intervir ou modificá-lo?  Para responder a esta pergunta temos que compreender alguns pontos importantes, sabendo que o bem patrimonial é portador de uma mensagem do passado, mas que só tem sentido se for usufruído no presente.

A partir dessa constatação inicial, temos que compreender que a fruição do bem cultural a que nos referimos aqui não é apenas a de uma observação casual como se ele fosse apenas uma curiosidade vinda de outros tempos. Hans Georg Gadamer já nos indicava em sua hermenêutica de base fenomenológica que a função da arquitetura é "mediar o passado e o presente", na medida em que sua duração extrapola o tempo de uma geração e atinge diferentes tempos com diferentes necessidades e diferentes leituras do objeto arquitetônico. Na realidade, esse bem cultural, a par de sua formulação vinculada a determinadas necessidades de uso, assume também uma função social que é a de orientar as populações e o cidadão no tempo e no espaço, colocando a cada um de nós como participes de um grupo comunitário que compartilha de uma história comum e de um lugar próprio no mundo, conferindo-nos a sensação de pertencimento. Essa função social se completa na sua função de orientação exercida quando percorremos as nossas cidades, através dos marcos arquitetônicos, por exemplo, ou que nos referenciam quando fruímos a nossa cultura ou quando compartilhamos nossa memória comum. Faz parte ainda dessa função social a consolidação de uma identidade coletiva, a qual faz reconhecer-nos como elos de uma comunidade e que estimula nossos laços afetivos e de cidadania. essas funções apontam para uma atitude projetual que muitas vezes não é compreendida pelo projetista e que, muitas vezes em sala de aula é reafirmada pelos professores que sacralizam o bem arquitetônico, promovendo a sua mumificação, o que vai na contramão da suas funções social, identitária ou de orientação, posto que quanto mais o bem servir à vida e com ela se integrar, mais essas funções serão exercidas.Portanto, para que o bem patrimonial possa exercer sua função mais ampla, ele tem que ser acessível e, para tanto, deve estar recuperado em sua potência.

É claro que ao preparamos o bem para sua fruição presente, na recuperação de sua potência, estamos nele intervindo. É este o momento em que surgem as perguntas sobre como fazermos essa intervenção e quais são os seus limites para que o bem não perca seu potencial de ligação com o passado e com a cultura. Estamos nos aproximando, portanto, de uma questão sobretudo ética porque se a preservação do patrimônio está fundada no respeito à pré-existência ela também diz respeito ao futuro, ou seja, versa sobre a nossa capacidade de ser hoje, mas também na de possibilitar as várias existências vindouras. Vamos examinar seus aspectos éticos, portanto, primeiro entendendo as dualidades que lhe são afetas e depois procurando entender como elas refletem no campo da preservação, procurando associá-las a práticas projetuais mais usuais.